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Maria Ferreira
Maria Ferreira

Maria Ferreira

Nascida a 14 de setembro de 1870 , em Amor, Leiria

Falecida a 31 de maio de 1961, em Amor, Leiria

Doméstica

Família

Fotografias (1)

Documentos (2)

Notas de investigação

MARIA FERREIRA, onze anos mais nova que o seu marido, viria a falecer em 1961, com 91 anos. Foi a parteira da terra durante muitas décadas! Ela tinha uma profunda mágoa: não ter visto a Nª Senhora de Fátima na terceira e última aparição a 13 de Outubro de 1917, dia em que se incorporou na grande multidão de peregrinos que foram à Cova da Iria para presenciar o milagre! Dizia-nos, sempre chorosa, que não fora digna de ver a Virgem Santíssima, não obstante ter-se esforçado olhando o Sol quando a multidão gritava e muitos diziam que estavam a ver a imagem da Virgem por entre os raios solares. Um desgosto que a atormentou para o resto da vida, não obstante a sua exemplar conduta como católica e pessoa de bem na comunidade. Enquanto a saúde lhe permitiu, vinha a nossa casa com muita frequência, ou para dar uma ajuda nas lides domésticas, ou simplesmente para saber como estava o nosso “rancho”. Não mais esqueci um episódio ocorrido quando tinha cerca de treze anos. Decorria a segunda guerra mundial e havia restrições nos abastecimentos de produtos alimentares, com o chamado racionamento controlado por senhas. O pão era um dos produtos incluídos e nós, como comerciantes, levantávamos diariamente a cota de vários clientes na única padaria que ficava a pouco mais de um quilómetro. Era uma tarefa que eu fazia, transportando o saco de pão na bicicleta e um dia resolvi sonegar dez tostões (um escudo) ao troco que me fora dado na padaria, pois estávamos em vésperas de uma festa rija e esta importância faria jeito para as iguarias. Cheguei a casa e informei minha mãe que havia caído da bicicleta e que os trocos me caíram do bolso, tendo desaparecido uma moeda. A avó Ferreira estava presente e ficou aflita, pois dez tostões para ela representavam um valor que não se podia perder. Começou a rezar uma ladainha conhecida por “responso”. Repetiu várias vezes e disse-me para eu ir ao local onde caíra e procurar bem, pois o santo invocado na ladainha ajudaria a encontrar a moeda. Cumpri e pelo caminho fui acometido de arrependimento, resolvendo regressar com a moeda e entregá-la em casa, pois não descortinava forma de desiludir a avó perante a sua crença e devoção. Limitei-me a dizer que a moeda lá estava na valeta, encoberta pelas ervas! Foi uma alegria muito grande e a avó foi logo à igreja rezar não sei quantas mais ladainhas e outras orações a agradecer ao Divino a graça de ter feito aparecer a moeda que o neto havia “perdido”! Esta santa mulher teve um final de vida muito difícil e cheio de sofrimentos. A saúde por um lado e as atribulações vividas no seio do aglomerado familiar da filha mais nova, que se constituiu debaixo do mesmo tecto, tornaram os seus últimos anos de vida num penoso sofrimento de que só se libertou com a morte. Não acompanhei a avó Maria Ferreira à sua última morada porque estava em Moçambique, mas reservo no meu íntimo um cantinho muito especial para esta querida progenitora que nos deu a vida e pouca ou nenhuma recompensa colheu dos seus descendentes, sobretudo na fase em que tanto necessitava. Se existir o Céu em que tanto acreditava, ela estará lá de certeza! Texto do neto Celestino Gonçalves, março de 2003