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Francisco Franquinho
Francisco Franquinho

Francisco Franquinho

Nascido a 3 de março de 1859 , em Cela, Alcobaça

Falecido a 6 de abril de 1940, em Amor, Leiria

Trabalhador · Guarda Florestal do Pinhal de Leiria · Guarda do Pinhal Real · Guarda Florestal

Família

Fotografias (1)

Documentos (3)

Notas de investigação

FRANCISCO FRANQUINHO, natural de Cela, concelho de Alcobaça, veio para Amor, concelho de Leiria, por volta de 1880, com pouco mais de vinte anos de idade. Aqui casou pouco depois com Maria Ferreira, descendente de uma das maiores famílias desta região, com inúmeros agregados nesta e noutras freguesias vizinhas. A sua actividade era a de cobrador de impostos da Casa Real. Como se tratava de uma profissão pouco simpática junto do povo ele resolveu abandoná-la e emigrar para o Brasil deixando cá a mulher já com a primeira filha de tenra idade. Contudo, a vida não lhe sorriu naquela ex-colónia portuguesa e cerca de um ano depois regressou e ingressou nos Serviços Florestais como guarda da Mata Nacional de Leiria, também conhecida por “Pinhal do Rei” por ter sido mandada plantar pelo Rei D. Dinis, no século XIV. Ao tempo esta mata abrangia a faixa costeira desde a Nazaré, a sul, até à Figueira da Foz, a norte, e estendia-se para o interior, nesta região, até ao vale do rio Liz . O avô Franquinho ocupou a Guarda situada junto da povoação de Amor, num local conhecido por “Alto de S. Paulo”, sobranceiro precisamente ao referido vale. No princípio do século XX os limites do Pinhal do Rei foram grandemente reduzidos devido ao aumento dos aglomerados populacionais abrangidos por grande parte da área de floresta, pelo que a “Guarda” de Amor foi extinta e o respectivo edifício e terrenos adjacentes passaram a pertencer a uma família nobre das Caldas da Rainha. Colocado depois na Guarda da Mioteira, em pelo coração da Mata Nacional, o avô Franquinho desenvolveu ali um papel relevante no maneio e fiscalização deste importante património florestal, que na época era preponderante no abastecimento de lenhas para o funcionamento das fábricas de vidros da Marinha Grande e Vieira de Leiria e de madeiras para todo o país. Devido ao isolamento daquela Guarda, o nascimento dos sete filhos do casal ocorreu na casa da família, em Amor. Contudo, o clã viveu muitos anos na Mioteira, considerada um autêntico oásis em plena floresta de pinheiros. O avô Franquinho introduziu ali muitas e variadas árvores de fruto e de sombra, videiras de várias castas, plantas e flôres, assim como cultivava os produtos de horta essenciais. Minha mãe e meus tios Manuel e Luiz Franquinho contavam-nos muitas histórias sobre a vida pacata e feliz que ali passaram na sua juventude. Eu e meus irmãos ainda tivemos o privilégio de conhecer a Mioteira muito próxima da sua pujança. Em miúdos por lá passávamos, sempre que íamos à praia da Vieira, para admirar aquele local que se tornara místico para a família e éramos ali bem recebidos pelo guarda residente – o Snr Brilhante - que nos obsequiava com fruta do famoso pomar que o avô Franquinho plantara muitos anos antes. Entretanto a nova política de maneio da Mata Nacional, na década de 70, levou ao abandono das Guardas instaladas no seu interior e a Mioteira foi desactivada. Durante muitos anos as figueiras foram as únicas árvores que resistiram até serem totalmente dominadas pela vegetação nativa e pelos pinheiros e hoje apenas se notam ali vestígios de escombros das casas. Em 1977, quando me encontrava de férias em Amor, acompanhei os tios Manuel e Luiz à Mioteira, local que ambos gostavam de visitar sempre que aqui se juntavam e que era uma romagem de saudade para recordarem os tempos da sua meninice. Havia ali, ainda, vestígios bem marcantes do seu tempo, como por exemplo o banco da cozinha onde eles e os outros irmãos se sentavam à fogueira. Ambos acariciaram aquele objecto, sentaram-se nele lado a lado e recordaram episódios relacionados com a disciplina caseira conduzida pelo patriarca Franquinho! A educação que eu e meus irmão recebemos teve muito a ver com os padrões dos nossos avós maternos, que sempre serviram de exemplo e que eram invocados a cada momento pela nossa mãe como paradigmas das melhores virtudes. Pouco conheci o avô Franquinho, pois faleceu quando eu tinha apenas dez anos. Conservo na memória a sua figura já recurvada pelo peso da idade e da doença reumática que o afligiu nos últimos anos de vida, assim como o seu rosto de ancião bem marcado pelas acentuadas rugas e que nos inspirava profundo respeito e admiração. Ouvi de alguns conterrâneos de gerações anteriores à minha, que bem o conheceram na plenitude da sua actividade profissional, referências que o creditavam de um homem de grande personalidade e muito respeitado por todos. O avô Franquinho, após reformado, viveu os seus últimos anos na sua casa de Amor, tendo falecido em 1940, com 91 anos. Dedicou-se à agricultura e cultivo de árvores de fruto e vinha, à boa maneira da sua região de origem e que eram exemplo de organização. Ele trouxe para aqui novos processos de enxertia, de poda e de alinhamento dos pomares e da vinha que não eram conhecidos! Preocupou-se o avô Franquinho em dar aos seus filhos a educação tradicional das famílias da aldeia: os filhos varões (quatro) tiveram uma razoável preparação escolar, para a época, e três deles vieram a ingressar em organismos do Estado (dois nos Serviços Florestais – Francisco e Manuel - seguindo a profissão do pai e um – Luiz - nos Correios como guarda-fios). O quarto filho – Artur – dedicou-se à marcenaria e viria a falecer ainda novo por ter sido vítima de atropelamento quando regressava do trabalho. As filhas (três), essas ficaram pelas tarefas domésticas e a limitados conhecimentos das letras e dos números, obtidos no seio da família. Texto do neto Celestino Gonçalves, em março de 2003